Certo dia sonhei com alguém e pensei que fosse eu. Mas era ela.
Ela, que vendia quadros num ateliê do Centro da Cidade para poder sustentar os cinco filhos – seus meninos, como ela frisava na maior parte do tempo. Era sozinha; o marido tinha outra família, talvez com outros cinco filhos. Mas sentia-se feliz mesmo assim, porque o que ele lhe roubara em sono tranqüilo, ela lhe afanava em pensão.
Ela, que ocupava as noites de insônia lavando cuecas, engomando roupas e ao mesmo tempo pensando em idéias para quadros, tudo isso na companhia do pequeno Ian, o mais jovem, que se recusava a dormir sem ela. Provavelmente porque ela lhe contava as histórias mais fantásticas de piratas e o acalentasse até que alcançasse o sono. Se a doçura era intensa de um lado, a cobrança e rigidez não eram menores, características que formaram o responsável e sério James.
Como era mais velho e depois que o marido dela se foi, assumiu a família e ajudou a mãe com os irmãos. Não tinha planos pessoais além da felicidade da família – aquela era sua missão, a que seu pai havia falhado em realizar.
Ela, que com suas mil e uma faces, tornou-se responsável pelas aventuras do encapetado Santhiago e pela genialidade de Ícaro. Também pela audácia de Morgan – considerado por ela o mais perigoso dos filhos – e pela doçura de Ian.
À noite, tomava pílulas para dormir em paz; com direito a doses extras quando Santhiago arranjou uma namorada e quando Ícaro foi estudar no exterior. Às vezes, nem eram necessárias, como daquela vez em que Ian fez-lhe um vaso de rosas no Dia das Mães e quando Morgan deu-lhe, timidamente, o primeiro abraço em dezoito anos.
Ela, que se lembrava das noites em que ensinava álgebra – em vão – para Santhiago, desavisada do real propósito do estudo: arranjar uma namorada. Quando ela descobriu, apenas suspirou. Pelo menos, estava estudando.
Não tinha muitas lembranças de James. James crescera rápido demais, tornara-se adulto com uma facilidade incrível. Sua presença para ela era firme, porém invisível. Era como se ele fosse parte da casa, ou a bengala de uma senhora. Sempre útil, sempre silencioso. Tal como Morgan, era um livro fechado, mas que havia passado despercebido pelos olhos atentos dela.
Algumas vezes, quando ficava até tarde no ateliê terminando algum quadro, ao chegar em casa sentia como se houvesse passado o tempo de uma vida. Como se a vida corresse mais rápida e mais viva dentro de casa. Como se, de uma hora para outra, o seu pequeno Ian não gostasse mais de chocolate com sorvete.
E um dia isso aconteceu. Mas ela não estava fora de casa. Eram eles, os cinco, que estavam. E foi assim até o fim de seus dias: ela, que quando jovem mãe pensava no futuro dos seus meninos, hoje, pensa no passado deles. Lembra da primeira fralda, do primeiro sorriso, das primeiras decepções e de como tudo passara feito um sonho.
Quer dizer, até o fim, não. Até o nascimento dos netos!
Um comentário:
Ahhh... os benditos filhos...
Tamires, você escreve muito bem, mas... - ahhhh... os malditos temas!
Claro, na minha humilde e modesta opinião. =D
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